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Reportagem: Thiago Aquino* || Orientação: Profº Josbeth Macário || Revisão:  Dayanne Teixeira

- Material produzido entre fevereiro e abril de 2017 -

*Estudante de Jornalismo do 8º Período

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Se preferir, envie a sua mensagem ao repórter: thiagoaquino.al@gmail.com

Falta de peixes

Os pesquisadores garantem que o desaparecimento de peixes e crustáceos é resultado da falta de saneamento e do uso de agrotóxicos.  O processo por trás do crescimento das baronesas também provoca a morte das espécies.

Espécies encontradas com fartura no Mundaú do passado, segundo pescadores (Arte: Thiago Aquino / Imagens: Google Imagens)

Quem está impressionado com as imagens é Romildo da Silva, 43, que mora há mais de 20 anos em Guarulhos, SP, mas é natural do município da Zona da Mata Alagoana, a 110 km de Maceió. Ele e a esposa Adriana Santiago sempre visitam as famílias e, desta vez, foram surpreendidos com os efeitos da estiagem. Em um aplicativo móvel, eles compartilharam fotos com o sentimento de tristeza. “É a primeira vez que venho passear e vejo o rio numa situação dessa. É lamentável”, afirma Romildo.

As baronesas e outros tipos de vegetação escondem a água de cor escura, formam uma camada verde e consolam o rio. O problema é que o surgimento delas não é por um bom motivo. O biólogo Ronaldo Gomes Alvim explica que a presença das plantas é sinônimo de poluição. “A soma do baixo nível de água com o descarte de produtos químicos através do esgoto faz proliferar o crescimento das baronesas”, justifica. “Elas servem como um tipo de filtro, mas consomem o oxigênio da água, provocando a morte de peixes”.

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COM CHOCOLATE E COM AFETO

O Rio Mundaú morreu”. Esta afirmação é do pescador Júlio Honorato, de 60 anos, morador de Santana do Mundaú e que durante 30 anos viu o rio cheio de vida. Após sete anos da enchente que deixou mais de 3 mil desabrigados, o município que recebe o nome do rio tem vivenciado algo nunca visto: onde, antes, havia correnteza d’água, hoje, há apenas bancos de areia, pedras, baronesas, lixo, esgoto e animais.

O cenário é de abandono. O mau cheiro chama atenção de quem atravessa a pé enxuto e até os urubus se tornaram companheiros do Mundaú. Em alguns pontos, há água parada em poços resultantes de extração de areia. Já em outros, a água corrente circula em dois ou três centímetros. A redução do volume de água fez aparecer objetos presentes no curso do rio. Vaso sanitário e até parte de uma carroça enferrujada se misturam às areias.

Hoje o Mundaú passa despercebido no centro da cidade

(Foto: Bacural Drones / Cortesia)

Santana sem Mundaú

Após enchente, cidade em AL vê rio secar

Por trás de desastres, há uma enxurrada

de ações que provoca impactos ambientais

Seca severa

Choveu apenas 40% do esperado no inverno de 2016
Foto: Thiago Aquino

Um dos motivos para a baixa vazão da água é a seca prolongada. O meteorologista Vinícius Nunes Pinho, da Secretaria Estadual de Recursos Hídricos e Meio Ambiente (Semarh), esclarece que não se trata apenas de uma estiagem. “Um dos causadores dessa falta de água foi o inverno de 2016. Nosso estado já vem passando por um período de estiagem desde 2015 e, no ano seguinte, choveu apenas 40% do que era esperado. Onde chove normalmente em torno de 1.300 a 1.400mm, choveu pouco mais de 600 mm”, recorda o especialista.

Vinícius afirma que a recarga hídrica durante o inverno comprometeu o período do verão: “Aquela chuva supriu a necessidade apenas durante o inverno, mas não sobrou para adiante. A partir do momento quando não há chuva dentro da normalidade no inverno, já consideramos uma seca severa e ela vem se estendendo até agora”.

O mestre em Hidrometeorologia afirma que diversos fatores influenciaram a pouca chuva. “No ano passado foi o El Niño, o resfriamento das águas do Oceano Pacífico. Agora é o Oceano Atlântico que está mais resfriado que o normal na costa do nordeste, o que significa menor evaporação e menos combustível para que a chuva ocorra”, diz.

O desaparecimento da água do rio e a crise hídrica são situações atípicas, o que acaba surpreendendo os moradores. “É uma das regiões onde mais chove em Alagoas. Quem imaginaria que sete anos após a enchente, a Zona da Mata Alagoana sofreria com uma seca severa?”, questiona, surpreso, o meteorologista.

Seca em zona da mata surpreende meteorologista (Foto: Thiago Aquino)

Começa na segunda quinzena de abril o período chuvoso, mas os efeitos da seca devem continuar.  “A perspectiva é que tenhamos um pouco mais de chuva do que ano passado. O volume vai ser mais próximo da normalidade, mas ainda não vai ser suficiente para repor todo o déficit que a região vem sofrendo”, reconhece.

A Sala de Alerta da Semarh mantém um sistema de monitoramento da seca em Alagoas. O município de Santana do Mundaú, até o boletim de abril, está na faixa vermelha do mapa, o que significa seca excepcional. Esse quadro pode comprometer o próximo verão.

“A tendência é que melhore um pouco, no entanto, mesmo chovendo dentro da normalidade, não resolve. No inverno, as pessoas vão sentir a melhora, mas não terá água suficiente para o próximo verão. A situação é crítica”, alerta Nunes.

chuvas em 2017 não serão suficientes para

amenizar os reflexos da seca (Foto: Ilustração / Semarh)

O Rio Mundaú já ofereceu uma diversidade de peixes e meios de diversão.

Confira, no vídeo abaixo, depoimentos de moradores e pescadores!

“Rio com vida só em pintura”

 

Não há registros fotográficos da época em que Santana do Mundaú demonstrava ser um paraíso. Quem recordou um trecho do rio e colocou na tela um Mundaú completamente diferente de hoje foi Rosivaldo Rodrigues, 55. Por trás de cada parte do quadro, o pintor tem história para contar.

Rosivaldo retrata o Rio Mundaú dos anos 70 em pintura (Foto: Thiago Aquino)

“Jogamos bastante bola em um areado que tinha nas margens do rio. Havia grupos divididos pelas localidades antes e depois da ponte, ninguém passava para o lado do outro, mas sempre tinha um torneio, quando todo mundo se juntava. Era bom demais”, narra.

O artista comenta que tentou mostrar na pintura o “Banho da Maroca”, citado por muitos moradores da cidade como um ponto de encontro para diversão e pesca. “Isso aqui só podemos ver agora em pintura”, lamenta Rosivaldo.

“O nutriente MPK – que são nitrogênio, fósforo e potássio – quando usado em área agrícola, é carregado pela chuva até o rio e vai alimentar algas. Elas formam uma barreira impedindo a entrada de luz, que proporciona o consumo de oxigênio. Com a redução dele na água, os peixes morrem, porque são sensíveis a essa redução”, explica a engenheira florestal Milena Caramori.

Esses mesmos nutrientes são encontrados no esgoto que é lançado sem tratamento no rio. “O detergente e a urina, por exemplo, servem de adubo químico, o que a planta consome para crescer”, lembra.

A denúncia de pescadores de que veneno era jogado no rio também traz mais um motivo para as espécies não terem sido preservadas. “É um tipo de veneno que sequestra o oxigênio e o peixe morre e boia. O objetivo é de uma pesca mais fácil, mas o impacto ambiental é impressionante”, detalha Valmir Pedrosa, doutor em Recursos Hídricos e Saneamento.

A enchente

Tragédia deixou município em situação de calamidade pública. Foram 19 cidades de AL devastadas pela enchente.

Para quem não conhece o histórico do Rio Mundaú, não imagina que foram as águas que passaram por ele que deixaram o município em estado de calamidade pública por seis meses. De acordo com a Defesa Civil Estadual, a enchente de 2010 deixou, no município, 4.250 desabrigados e desalojados e uma pessoa desaparecida naquela sexta-feira, 18 de junho. A enxurrada destruiu o comércio de Santana do Mundaú, prédios públicos e igrejas.

O comerciante Gilmar Alves Brasileiro, aos 45 anos, foi levado pelas águas do Rio Mundaú e o seu corpo nunca foi encontrado. O irmão, vereador José Alves Brasileiro, popularmente conhecido como Genor, recorda que Gilmar chegou a retirar uma moto do prédio, que também funcionava como bar, e a colocou em uma rua mais alta, mas voltou à pousada por receio do prédio ser saqueado.

gilmar estava no alto do prédio minutos antes de ser

arrastado pela enchente (Foto: O Jornal / Reprodução)

“Quando a água começou a subir, ele foi pegando o que podia e levando para o primeiro andar. A água não parou de subir e ele, mesmo já cansado, ainda recorreu ao segundo andar. Depois disso ficou na cobertura do prédio, onde ficou até os seus últimos momentos com vida”, relata Genor. A pousada foi arrastada para uma rua próxima e parte dela, curiosamente, ficou intacta.

“Se eu não estivesse na correria na minha casa também por causa da cheia, eu não teria deixado meu irmão lá. Na enchente de 92, eu e meu pai éramos comerciantes e deixamos o prédio, mas Gilmar não tinha visto aquilo antes e se confiou na estrutura do prédio”, lamenta Genor.

Parte de pousada foi arrastada (Foto: Gazeta do Povo)

Além da dor da perda, os parentes e amigos de Gilmar ainda carregam a tristeza de não encontrar o corpo. O vereador diz que a família não recebeu nenhum apoio de imediato: “Após a água baixar, rodei toda a região a pé à procura dele. Infelizmente só depois de três dias é que o Corpo de Bombeiro chegou para fazer buscas. Foi em vão”.

O cenário devastador repercutiu na imprensa, mobilizou o país em uma rede de solidariedade e mudou os rumos de Santana do Mundaú, que comemorava 50 anos de emancipação quatro dias antes da tragédia e assistia à Copa do Mundo no Brasil.

Hoje, a cidade vive dividida. São 1.261 casas, uma praça, duas escolas, postos de saúde e secretarias que funcionam no Residencial Santana do Mundaú, construído pelo Programa da Reconstrução.

Irmão de Genor foi levado pelas correntezas durante a enchente de 2010 (Foto: Thiago Aquino)

Cidade continua “dentro” do rio

Mesmo com o histórico de enchentes, a área ribeirinha continua sendo habitada.  Casas, lojas e até prédios públicos funcionam no local que, em 2010, foi coberto pela enxurrada.
Foto: Thiago Aquino

Na casa do ex-vereador Maciel Barbosa, 27, na Avenida Maria Pereira Maia, só o telhado ficou fora d’água. Ele, os pais e mais dois irmãos perderam móveis, roupas e documentos. A casa ficou parcialmente destruída. “Perdemos bem mais que bens materiais, perdemos um pouco da nossa história registrada em fotografias, nas fachadas das casas antigas e as vidas que foram tiradas pela enchente ou pela consequência dela”, conta.

 

Passados 7 anos, o leito do Mundaú continua sendo visto pela família do quintal de casa. O motivo de voltar ao local surgiu logo após a enchente. O assistente social explica que após um mês e 15 dias, passada por alguns reparos, a casa foi o único local para acolhê-los. “Nos primeiros dias ficamos muito amedrontados, mas não tínhamos para onde ir. Santana do Mundaú também não oferecia condições de sairmos da área de risco”, afirma Maciel. 

leito do rio tornou-se o quintal de residências (foto: thiago aquino)

A família foi beneficiada com uma casa do Programa da Reconstrução, recebendo a chave após quatro anos da tragédia. Durante esse período, a casa às margens do rio já tinha passado por reformas e “a condição financeira”, de acordo com Maciel, não permitiu que a nova casa fosse reformada, já que era considerada pequena para acomodar a todos.

 

“Hoje, quem mora na nova casa é minha irmã e nós continuamos aqui em baixo”, diz Maciel. “Mesmo diante da grande estiagem pela qual estamos passando, minha mãe vive amedrontada e não vê a hora que possamos ir para outro lugar que ofereça mais segurança”.

A aposentada Josefa Batista, com 86 anos, já foi vítima de três enchentes: em 1982, 1992 e da maior, em 2010. Nos três momentos, só deu tempo de salvar a própria vida. Desde a primeira tragédia, ela e a filha moravam na Rua General Batista Tubino, conhecida como “Rua da Baixinha”, por ser a primeira da cidade a ser invadida por enchentes.

 

Mãe e filha também foram beneficiadas com uma nova casa, no Residencial Santana do Mundaú, e não pensaram duas vezes antes de se mudar. “Minha casa ficou de pé, mas já tinha sofrido muito morando lá e o que eu iria esperar mais? Quando vi a nova casa pela primeira vez, já queria ficar aqui, só esperei a oportunidade”, relata a aposentada “Dona Nega”, como é chamada. “Não sinto saudade de lá e estou muito satisfeita morando aqui, longe do rio”.

O LEITO DO MUNDAÚ É O QUINTAL DE RESIDÊNCIAS (foto: thiago aquino)

Nem em pesadelo quero ver mais uma coisa daquela e só fico preocupada

com quem continua

lá em baixo.

JOSEFA BATISTA, 86

Foto: Thiago Aquino

A Coordenação Estadual da Defesa Civil diz que a responsabilidade de impedir a construção de casas e a permanência dos moradores na área de risco é da Prefeitura. “É o Município que tem o poder de fiscalizar, através da Defesa Civil e da Secretaria de Agricultura ou do Meio Ambiente, para evitar novas vítimas em caso de futuros desastres”, informa o tenente Douglas Gomes, chefe do Setor de Desastres Naturais da Defesa Civil de Alagoas.

Prefeitura deveria impedir construções

às margens do rio, diz Defesa Civil

douglas é  chefe do setor de desastres naturais de al

(foto: thiago aquino)

Quitério Fernandes fez parte da Defesa Civil Municipal em 2012 e lembra que o Município recebeu a recomendação do Instituto do Meio Ambiente, IMA, que os 50 metros em torno do rio pudessem ser considerados como área de risco e que deveriam ser reflorestados, mas “a desestruturação da Defesa Civil local não levou adiante a medida”. “Hoje não há nenhum registro na Prefeitura que a cidade tenha área condenada”, enfatiza Quitério.

Área atingida pela enchente não foi condenada

moradores e comerciantes não foram impedidos

de continuar em área de risco (foto: thiago aquino)

O ex-prefeito Marcelo Souza (PSC), que esteve à frente do Município entre 2010 e 2016, confirma que nenhuma área da cidade foi demarcada e oficializada como área de risco. Ele alega que o Município não teve condições de impedir novas construções e a volta dos moradores às margens do rio. “Também não recebemos nenhum apoio do governo [estadual] para que isso acontecesse e você sabe como é complicado, né?”, argumentou Souza.

Foto: Thiago Aquino
Imagens: MD Imagens