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Reportagem: Thiago Aquino* || Orientação: Profº Josbeth Macário || Revisão:  Dayanne Teixeira

- Material produzido entre fevereiro e abril de 2017 -

*Estudante de Jornalismo do 8º Período

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Se preferir, envie a sua mensagem ao repórter: thiagoaquino.al@gmail.com

O rio que gerou energia

virou manancial de doenças

O barulho da água parecia que a gente estava ouvindo ondas do mar”. O depoimento do eletricista aposentado Eduardo Firme,63,não é exagero. A quantidade e a força das águas do Rio Mundaú já foram capazes de gerar energia por sete anos e atender à quase toda a cidade.

 

A Companhia Energética de Alagoas (CEAL) inaugurou em 1988 a Central Hidrelétrica Cachoeira da Escada entre a cidade de Santana do Mundaú e Correntes (PE), local onde marca a divisa territorial entre Alagoas e Pernambuco.

 

Eduardo lembra que a hidrelétrica só foi inaugurada após um mês de obra concluída: “Eu cheguei à Santana do Mundaú justamente por causa dessa hidrelétrica. Após passar por um curso de operador de hidrelétrica em Sete Lagoas, Minas Gerais, fui chamado para trabalhar aqui. Lembro que os técnicos da CEAL duvidavam e tinham receio de ligar a hidrelétrica e, numa quarta-feira, fui lá e coloquei pra funcionar. Foi então que marcaram o dia da inauguração”.

EDUARDO FOI OPERADOR DE HIDRELÉTRICA (Foto: THIAGO AQUINO)

Os olhares curiosos dos moradores e a presença do governador Moacir Andrade e do presidente da Ceal, Alfredo Cortez, marcaram a inauguração da hidrelétrica. “A Pequena Central Hidrelétrica (PCH) abastecia 90% do município e ainda reforçava a energia em União dos Palmares. Eram 24 metros cúbicos de água por segundo, 50 metros de queda livre e 120 metros de extensão de água no reservatório”, calcula Eduardo.

com seca, cachoeira não vê mais água  (Foto: THIAGO AQUINO)

A geração de energia, segundo ele, funcionou até 1995. A enchente de 1992 chegou a danificar parte da estrutura, mas voltou a funcionar. “Depois de um tempo não quiseram mais investir e abandonaram. O tempo deixou os equipamentos deteriorados e sem falar que até roubaram”, revela o eletricista aposentado. “Era uma coisa muito bonita, levada a sério, na época, mas que acabaram”, lamenta. “Acredito que se não fosse o abandono e o rio fosse preservado, hoje ela funcionaria”.

estrutura foi tomada pelo abandono  (Foto: THIAGO AQUINO)

Para Valmir Pedrosa, pós-doutor em Engenharia e professor nos cursos de Engenharia Civil e Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o abandono da obra é um caminho sem volta. O baixo nível de água e a falta de estrutura são os motivos para não gerar mais energia. “É inviável reestruturar aquela PCH porque as condições atuais não favorecem: temos pouca água no rio e investir em uma obra de um retorno duvidoso não dá”, opina Pedrosa.

 

Oficialmente, pouco se sabe sobre o montante de recursos investidos na Pequena Central Hidrelétrica. A Prefeitura não tem arquivos. A Eletrobras, antiga Companhia Energética de Alagoas (Ceal), informou que não tem acesso às informações da Companhia e que a Companhia Hidrelétrica de São Francisco, Chefs, é a responsável por gerar energia. Questionada sobre a obra, a Chesf, por meio da assessoria de imprensa, respondeu que não tem conhecimento da hidrelétrica em Santana do Mundaú.

Assistindo o vídeo abaixo, você vai entender como funciona uma PCH

Da vida à morte

O Rio Mundaú, que iluminou a cidade e deu vida à paisagem ribeirinha, tornou-se motivo de preocupação para a saúde da população. O lançamento de esgoto sem tratamento no rio e a dependência das águas poluídas para banho, lavagem de roupa e utensílios domésticos fizeram de Santana do Mundaú uma área endêmica da esquistossomose. Foram mais de 7 mil casos registrados pela Secretaria Estadual de Saúde, Sesau, nos últimos 10 anos. 

A doença, se não for tratada inicialmente, pode trazer sérias complicações, inclusive a morte. Foi o que aconteceu com a empregada doméstica Vera Lúcia da Silva, que faleceu há 3 anos.

 

Mãe de 3 filhos, Vera lutou por 4 anos contra a doença. Foi internada duas vezes no Hospital Universitário, em Maceió, mas não resistiu. A irmã Maria Irinete lembra que Vera foi diagnosticada 10 anos antes, mas que resistiu ao tratamento. “Ela não quis tomar os comprimidos no início, não sentia nada e quando começou a sentir já era tarde”, diz, emocionada.

Maria conta que a doença atingiu aos poucos o fígado de Vera, o que foi deixando a moradora do Sítio Mirim debilitada. “Quando ela faleceu, já não tinha praticamente o fígado, a ‘sistossoma’ acabou com tudo”, relata a irmã da vítima.

 

Indagada se mais alguém na família já teve o problema de saúde, Irinete responde sem nenhum espanto: “Meu filho, aqui [em Mundaú] todo mundo faz exames, o pessoal do Sucam [hoje Setor de Endemias] diz quantos ovos da ‘sistossoma’ a pessoa tem e dá remédio. Isso é normal e quando uma pessoa de uma casa tem, os outros também têm. E agora que o povo está pegando água do rio, aí é que vai ter mesmo”, fala preocupada, com um sentimento de não poder fazer nada diante do problema.

vera (à esquerda) foi vítima da esquistossomose

(Foto: THIAGO AQUINO)

Da vida à morte

O Rio Mundaú, que iluminou a cidade e deu vida à paisagem ribeirinha, tornou-se motivo de preocupação para a saúde da população. O lançamento de esgoto sem tratamento no rio e a dependência das águas poluídas para banho, lavagem de roupa e utensílios domésticos fizeram de Santana do Mundaú uma área endêmica da esquistossomose. Foram mais de 7 mil casos registrados pela Secretaria Estadual de Saúde, Sesau, nos últimos 10 anos. 

A doença, se não for tratada inicialmente, pode trazer sérias complicações, inclusive a morte. Foi o que aconteceu com a empregada doméstica Vera Lúcia da Silva, que faleceu há 3 anos.

 

Mãe de 3 filhos, Vera lutou por 4 anos contra a doença. Foi internada duas vezes no Hospital Universitário, em Maceió, mas não resistiu. A irmã, Maria Irinete, lembra que Vera foi diagnosticada 10 anos antes, mas que resistiu ao tratamento. “Ela não quis tomar os comprimidos no início, não sentia nada e quando começou a sentir já era tarde”, diz, emocionada.

Estiagem pode aumentar casos de esquistossomose

moradores colocam saúde em risco ao ter contato com água poluída  

(Foto: THIAGO AQUINO)

Com o reservatório de água vazio, como divulgado na reportagem anterior, a Prefeitura de Santana do Mundaú tem realizado o abastecimento por meio de rodízio de até nove dias. Os moradores dizem que é insuficiente e que são obrigados a estar em contato direto com a água poluída do Mundaú.   Além disso, eles reclamam que a água distribuída pela Prefeitura, captada do rio, é suja. 

O contato com a água do rio Mundaú pode levar o município a sofrer uma nova epidemia de esquistossomose, além de outras doenças, seja pelo contato direto com o rio, seja pelo abastecimento de água sem o tratamento adequado. Quem faz o alerta é o infectologista Fernando Maia. Entenda a situação ouvindo a reportagem abaixo:

 Obra que poderia tratar esgoto 

 foi abandonada em 2006 

Foto: Thiago Aquino

O local pode passar despercebido para quem vai chegando à cidade. Pequenas casas, plantações e animais estão hoje em um terreno onde deveria funcionar a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE).

 

A obra foi iniciada em 2006 na gestão do ex-prefeito Elói da Silva (PSC). O ex-gestor alega que a Prefeitura “não viu a cor do dinheiro” e que a responsável por executar a obra foi a Secretaria Estadual de Infraestrutura, no governo de Ronaldo Lessa. “Eram pra ser três ‘açudes’, fizeram só um e colocaram ainda uns 200 metros de canos em direção à cidade, mas pararam”. Com a responsabilidade de acompanhar a obra, o prefeito não lembra ao certo os valores investidos. “Foram uns R$600 mil, mas parece que só pagaram a terra e deixaram pra lá”, acrescenta.

Quem até hoje está no prejuízo por causa do início da obra é o agricultor Marcio Duarte, de 75 anos. Ele não quis ceder parte de suas terras “ao governo”, mas foi obrigado a perder parte de sua propriedade e reclama que até hoje não recebeu pela desapropriação.

 

Foram dois motivos para ele não concordar com o desapropriamento. “Assim que soube dessa ideia, eu argumentei que aquele local seria inadequado: é o início da cidade e o mau cheiro seria terrível. Sem falar que fica a poucos metros do Rio Mundaú e eu até comentei que se tivesse uma cheia a obra seria destruída, mas ninguém me ouviu”, frisa. “O valor que estimei para desapropriar foi de R$ 70 mil reais. Depositaram R$ 7 mil em minha conta e não tive escolha. Até hoje nunca peguei nesse dinheiro. Não quis”, desabafa Marcio.

MÁRCIO AINDA AGUARDA INDENIZAÇÃO (Foto: THIAGO AQUINO)

processo aguarda decisão da justiça (Foto: dicom / tj)

O caso foi parar na Justiça. O proprietário chegou, na época, a ganhar a causa, mas ele recorda que o então prefeito Elói da Silva recorreu e conseguiu que a obra tivesse início. “Gastei mais de R$ 3 mil com advogado e hoje continua um processo para tentar receber aquilo que perdi”, reforça.

 

O agricultor afirma não querer a propriedade “nem de graça para não perder o sossego”: “Um amigo do prefeito tomou conta e a terra foi sendo invadida. Hoje algumas famílias moram lá, plantam e criam animais. Se expulsarem aquele povo eu não vou ficar à vontade nem para sentar na porta da minha casa”, relata o aposentado. “Queria mesmo era que me pagassem”, diz ao calcular que, atualmente, o terreno de 300 metros de cumprimento valeria 300 mil reais.

A Secretaria Estadual de Infraestrutura informou que a detentora do recurso foi a Fundação Nacional de Saúde, Funasa. O governo estadual reconhece que “foi implantado o tratamento preliminar e a primeira lagoa de tratamento, além de uma extensão com cerca de 1.100 metros de linha de recalque”, mas que “o repasse do recurso foi interrompido por parte da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e as obras foram paralisadas no ano de 2006”.

 

A assessoria de imprensa informou, também, que os municípios de Santana do Mundaú, União dos Palmares, São José da Laje, Murici, Santa Luzia do Norte e Messias foram contemplados com o projeto Alvorada, que inclui a Estação de Tratamento de Esgoto, mas que apenas em Messias e Santa Luzia estão operando.

 

A FUNASA não respondeu por e-mail os motivos para a paralisação das obras.

Município, Estado, Funasa e União na mira do MPF

AÇÃO PEDE TRATAMENTO EM FUNCIONAMENTO (Foto: SANDRO LIMA / TRIBUNAHOJE)

O descaso pela falta de saneamento básico chamou atenção do Ministério Público Federal (MPF/AL). A instituição ajuizou uma ação civil pública ambiental – com pedido de liminar – contra a União, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o estado de Alagoas e os municípios de Murici, Santana do Mundaú, São José da Laje e União dos Palmares.

 

Na ação, é pedido com urgência que os réus sejam obrigados a colocar em funcionamento as Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) dos municípios banhados pelo rio Mundaú.A ação movida pela procuradora da República Niedja Kaspary foi ajuizada em 16 de março de 2017.

Fotos: Thiago Aquino

Companhia Energética de Alagoas foi a responsável por gerenciar PCH